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Índice de temperatura histórico e seca constatados na Amazônia durante o El Niño em 2015-16

10-Apr-2017

Olhando para cima dentre as árvores. A floresta da Amazônia enfrentou temperaturas altas históricas e grave seca durante os eventos do El Niño em 2015-16. Imagem: Rhett A. Butler/Mongabay

 

 

Os casos do El Niño em 2015-16 tiveram um impacto histórico na floresta da Amazônia, que de acordo com um estudo encontrado, essa região enfrentou novos extremos de calor e seca. Condições climáticas como essas afetam negativamente o crescimento e andamento das árvores da Amazônia, que executam um papel importante no controle do clima global.

O fenômeno do El Niño, ou melhor, El Niño – Oscilação Sul, está a um extremo de um ciclo natural e é marcado pelas atípicas temperaturas altas em superfície marítima no Oceano Pacífico Central e Pacífico Leste.

Presente em alguns anos, porém difícil de estimar, o fenômeno do El Niño pode ser reconhecido pelo mundo. Ele cria padrões climáticos descabidos, irregulares e frequentemente destrutivos: graves tempestades de gelo no Canadá, descoloração de coral histórica, inundações no Peru, secas e inundações na Indonésia e secas em Moçambique. Esses extremos climáticos temporários têm grande impacto em ecossistemas, agriculturas e em meios de subsistências, e se muito grave pode resultar em crises humanitárias como aquelas vistas atualmente em países pelos trópicos.

 

O novo estudo, liderado pelos cientistas da Unidade de Mudança Global na Universidade de Valência, na Espanha, examinou o evento mais recente do El Niño – e as condições que levaram a isso – comparadas com dois casos graves do fenômeno do El Niño que ocorreram desde 1979. No período de tempo analisado inclui-se o caso do El Niño de 1982-3; “O El Niño do século” em 1997-98; e a seca histórica do Amazonas em 2005 e 2010.

 

 

A área florestal atingida pela seca durante os casos de El Niño em 2015-16 foram 20% maior do que qualquer outro extremo provocado pelo El Niño. Aumento da mortalidade de árvores e redução de germinação durante períodos de seca e calor intenso impactando no ciclo global de carbono. Imagem: Rhett A. Butler/Mongabay

 

 

Os cientistas estudaram a temperatura da superfície do mar e do solo, um indicador de severidade de seca e o histórico de precipitações para determinar exatamente como os eventos El Niño, de várias maneiras, se desenvolvem no reservatório da Amazônia.

O grupo encontrou que não apenas 2015 poderia ser o ano mais quente para a Amazônia desde 1900 – onde se registrava 1.5 ° Celsius a mais do que durante os eventos do El Niño em 1997-98 – mas também que a área da Amazônia que sofreu seca extrema era 20% maior do que antes visto.

 

Entretanto, “o resultado mais marcante” de todos, foi “a diferença do padrão territorial da seca quando comparado aos últimos eventos mais intensos do El Niño”, de acordo com o estudo liderado pelo autor Juan Jiménez-Muñoz. Ao contrário da seca afetar toda a Amazônia, como em outros casos de El Niños, havia uma distinção visível entre as secas no leste, e chuvas acima da média no oeste. Um padrão similar a esse foi visto durante o caso de um El Niño mais fraco em 2009-10, revelou Jiménez-Muñoz.

 

O que ambos os eventos de 2015-16 e 2009-10 tinham em comum era que algo acontecendo milhares de quilômetros de distância. O aquecimento no Pacífico afeta os padrões do vento e correntes convexas atmosféricas, e juntos determinam quando e onde as chuvas estão mais concentradas.

 

Os pesquisadores pensam que a localização exata onde esse aquecimento ocorre no Pacífico é a chave: o aquecimento no Pacífico Central era associado ao padrão molhado-seco visto no caso mais recente de El Niño; em que o aquecimento estava concentrado no Pacífico Leste próximo à costa do Peru em 1982-83 e 1997-98.

 

Uma tempestade sob o Rio Amazonas. O padrão da seca na Amazônia em 2015-16 se difere dos graves eventos anteriores do El Niño, com a seca concentrada ao leste e chuvas acima da média a oeste. Cientistas acham que o local exato do aquecimento do El Niño no Pacífico é responsável: o caso mais recente do El Niño constatou aquecimento no Pacífico Central, diferente do aquecimento visto no Pacífico Leste em 1982-83 e 1997-98. Imagem: Rhett A. Butler/Mongabay

 

 

Outra distinção importante dos eventos anteriores do El Niño é a temperatura durante os anos passados. Altas temperaturas em 2014 podem ter contribuído para o aquecimento em 2015, algo que não foi visto em 1981 ou 1996.

 

As implicações do caso do El Niño em 2015-16 com suas temperaturas e secas extremas, e especialmente a concentração de seca nas áreas atingidas no nordeste da Amazônia, ainda podem ser percebidas. Porém, com base nos estudos de secas anteriores cientistas sabem que a “mortalidade das árvores aumenta e que o crescimento destas diminui”, afirmou Ted Feldpausch da Universidade de Exeter – UK.

 

“Para entender os efeitos causados em florestas e árvores em si requer um conjunto de estudos aéreos, térreos e por satélite”, explicou o ecologista especializado em florestas tropicais, Feldpausch, que estudou os impactos das secas na Amazônia, mas que não se envolveu em estudos recentes.

 

Algumas pesquisas revelaram que árvores maiores e aquelas com baixa densidade de madeira são as mais afetadas pela seca, mas ainda não foi explicado como isso se desenvolverá pelo ecossistema da Amazônia. “Entender como espécies diferentes respondem à seca ajudará a compreender melhor se florestas continuarão relativamente intactas durante um longo prazo ou se haverá alguma mudança na estrutura e função devido à sobrevivência das espécies com características específicas,” disse Feldpausch.

 

Incêndios pelo Rio Xingu. Incêndio na floresta, geralmente iniciado propositalmente para limpar o solo, pode facilmente sair do controle devido a condições de extrema seca. O fogo incontrolável libera rapidamente grandes quantidades de carbono para a atmosfera. Imagem: Expedition 19 Crew, cortesia da NASA

 

 

Após a morte e decomposição das árvores, elas liberam o dióxido de carbono que armazenaram durante sua vida. E assim como o crescimento das árvores diminui, menos dióxido de carbono é absorvido da atmosfera. Juntos, e dentro da escala da grande bacia da Amazônia, esses efeitos induzidos pela seca reduzem a capacidade da floresta tropical da Amazônia agir como um reservatório de CO2 atmosférico.

 

Secas e altas temperaturas também aumentam o risco de queimadas nas florestas, o que posteriormente contribui para a morte das árvores e a perda de biomassa da floresta, afirmou Jiménez-Muñoz. Normalmente, incêndios são iniciados propositalmente para limpar o solo, mas pode facilmente sair do controle devido a condições de extrema seca. As queimadas das florestas brasileiras ocorreram durante a época de seca em 2015, e em 2016 houve queimadas ainda mais intensas. Assim que a floresta é incendiada, muito dióxido de carbono é rapidamente liberado para a atmosfera, acelerando a mudança climática.

 

Com os níveis globais de dióxido de carbono recentemente ultrapassando o recorde de 400 partes por milhão, mudanças no ciclo de carbono em uma escala referente a Amazônia são globalmente importante. Anualmente, a Amazônia geralmente absorve pela região meio bilhão de tonelada de carbono, mais do que a emissão de carbono anual da Rússia e equivalente a aproximadamente um terço da emissão de carbono dos EUA. Mas a dimensão deste reservatório de carbono está decrescendo nos últimos anos, e durante uma seca extrema em 2010 foi interrompida inteiramente.

 

Jiménez-Muñoz supõe que algo parecido pode ter acontecido durante a seca do fenômeno do El Niño em 2015-16, mas aconselha que isso necessita comprovação de pesquisas complementares.

 

“Em um estudo recente baseado em três décadas de dados de censo de árvores provindos da emissora RAINFOR, nós acreditamos que a taxa de carbono acumulada em árvores está diminuindo indicando que, em um futuro não tão distante, as florestas antigas da Amazônia podem não ser mais um reservatório de carbono acima do solo”, declarou Feldpausch. “Um dos possíveis fatores desta mudança que nós continuamos a estudar é o efeito de anomalias de precipitações, como o último evento do El Niño”.

 

Um rio na Amazônia Peruana. Todo ano a Amazônia geralmente absorve meio bilhão de toneladas de carbono, mais do que as emissões anuais de carbono da Rússia e equivalente a aproximadamente um terço das emissões dos EUA. Mas a dimensão deste reservatório de carbono está decrescendo nos últimos anos, e durante uma seca extrema em 2010 foi interrompida inteiramente. Imagem: Rhett A. Butler/Mongabay

 

Um rio na Amazônia Peruana. Todo ano a Amazônia geralmente absorve meio bilhão de toneladas de carbono, mais do que as emissões anuais de carbono da Rússia e equivalente a aproximadamente um terço das emissões dos EUA. Mas a dimensão deste reservatório de carbono está decrescendo nos últimos anos, e durante uma seca extrema em 2010 foi interrompida inteiramente. Imagem: Rhett A. Butler/Mongabay


Os resultados entre o fenômeno do El Niño e o aquecimento global “ainda são uma questão a ser discutida” entre a comunidade científica, advertiu Jiménez-Muñoz. Mas quando eles ocorrem realmente “parece que os eventos do El Niño conduzem a algum tipo de ‘salto’ nas temperaturas globais provavelmente sem volta”, ele disse. “Se eventos graves do El Niño ocorrerem mais frequentemente no futuro [algo que é previsto em alguns exemplares, mas não em todos], é possível que esses acelerem o aquecimento global”.

 

Para a Amazônia, o cenário de longo prazo é incerto. Achavam que as florestas tropicais, como a Amazônia eram resistentes a secas intensas, afirmou Jiménez-Muñoz. Entretanto, devido aos múltiplos eventos nos últimos anos “parece que a floresta Amazônica é capaz de se recuperar de uma seca intensa em particular, mas sua superação deteriora quando secas contínuas ocorrem”.

“A principal pergunta que permanece é:”, de acordo com Feldpausch, “o que acontece se a Bacia da Amazônia continuar a apresentar máximas recorde de temperatura e secas anormais se repitam em intervalos curtos de tempo?”

 

Alguns temem que com as secas causadas pelo fenômeno do El Niño e queimadas acelerando a transição, a Amazônia possa estar próxima a um momento crucial, mudando de um reservatório de carbono para uma fonte de carbono. “Eu não acho que estamos nos aproximando de um momento crucial no período de curto prazo, mas [nós realmente] temos argumentos científicos preocupantes”, conclui Jiménez-Muñoz”. “[Nós] devemos ficar atentos ao ecossistema da Amazônia para ver como é desenvolvido nos próximos anos”.

 

 

 

 

 

 

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