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Peregrinação em Madre de Deus: começando a caminhar em direção a mineração artesanal sustentável

Durante sua recente visita ao Peru, o Papa Francisco se reuniu com líderes indígenas e condenou os perigos que ameaçam tanto a população da Amazônia como a das florestas. Destacou a mineração ilegal do ouro como um fator importante do desflorestamento. O interesse da imprensa mundial na mensagem papal já passou, mas o que fica para os que trabalham por melhorias no setor da mineração artesanal?

 

 

O Papa Francisco se reuniu com líderes indígenas, incluindo a Yesica Patiachi que pertence ao povo Harakbut, um dos três grupos étnicos mais importantes da região de Madre de Deus (Foto: Presidência do Peru,Creative Commons via Flickr)
 

 

"Francisco, amigo, é amazônico" gritava uma multidão de cerca 80.000 pessoas reunidas debaixo de uma temperatura ardente de 36°C.

 

Eles celebraram a visita do Papa Francisco a cidade peruana de Porto Maldonado. A cidade fica no coração da selva Amazônica, na região de Madre de Dios, e é conhecida no Peru como "A capital da biodiversidade". Pessoas locais e grupos indígenas do Peru, Brasil e Bolívia deram as boas-vindas ao Papa Francisco com os braços abertos e uma emoção incontrolável. 

 

Enquanto os moradores gritavam com entusiasmo no campo de um instituto local, o Papa realizou uma audiência com 3.500 líderes indígenas amazônicos. Durante uma reunião sem precedentes, o Papa Francisco e os indígenas conversaram sobre os temas que afetam aos povos amazônicos e ao meio ambiente. 

 

"Temos de romper com o paradigma histórico que considera a Amazônia com uma despensa inesgotável dos Estados sem ter em conta a seus habitantes - Papa Francisco."

 

O Pontifício de 81 anos, que já se pronunciou anteriormente sobre temas ambientais, expôs cruas verdades, disse que a Amazônia está disputada por interesses poderosos, incluindo as indústrias extrativas e florestais que buscam explorar seus recursos ou desmatar  suas terras para promover a agricultura em larga escala.

 

Condenou a distorção de políticas de conservação que não levam em conta as pessoas que vivem nas florestas. Falou do sofrimento dos adolescentes e mulheres escravizadas nas mãos das máfias que trabalham com a impunidade em aldeias e campos de mineração na Amazônia. 

 

E, ameaçadoramente, para aqueles que trabalham no setor da mineração artesanal e em pequena escala (MAPE), denunciou a mineração ilegal como a causa tanto da degradação como do tráfico de pessoas na região de Madre de Dios, nome que paradoxalmente alude à "Mãe de Deus".

 

Grandes problemas, grandes lucros

 

A mineração ilegal de ouro é de fato a fonte dos maiores problemas ambientais e sociais em Madre de Dios. Isto implica nas desflorestações massivas, solos e águas contaminadas com químicos tóxicos como o mercúrio, afetando inclusive a maioria das comunidade isoladas.

 

O Ministério de Energia e Minas do Peru alega que a região de Madre de Dios produziu 12 milhões de gramas de ouro em 2017. Isso é aproximadamente 9% da produção de ouro do país que não é insignificante tendo em conta que o Peru é o sexto maior produtor do mundo. Assim com o informou recentemente, o jornal Washington Post, a mineração em Madre de Dios é um "grande negócio". 

 

Apesar do governo ter destruiu centenas de acampamentos ilegais e  ter iniciado investigações para combater o tráfico de pessoas, as autoridade não puderam para as operações ilegais e nem os danos que ocasionaram. Existe uma comunidade global de pessoas que creem que a ASM pode ser diferente da que vemos em Madre de Dios: um motor para o desenvolvimento sustentável local. Trabalhamos em direção deles e através de diálogos, políticas públicas, apoio técnico e outras maneiras.

 

 

O Papa viajou a região Madre de Dios ( pino vermelho) no coração da Selva Amazônica. (Imagem: Google maps).

 

 

Mas a realidade dos desafios da mineração ilegal do ouro em Madre de Dios é desesperançosa, ainda para o defensor mais otimista do Mape.

 

 

"Realmente ouviu o que lhe dissemos"

 

Foi com esta situação como pano de fundo que o Papa Francisco chegou a Madre de Dios para se encontrar com os líderes indígenas.

 

Houve muita preparação para sua visita. Os líderes indígenas escreveram cartas (texto em espanhol) e vídeos onde ressaltam suas maiores preocupações, incluindo como a mineração ilegal de ouro que está prejudicando o bem- estar das pessoas e das florestas.

 

Muitos chegaram com pouca esperança de serem escutados; a intensidade e as conversações minuciosas que tiveram com Francisco, os tomou de surpresa. 

 

O Instituto Internacional de Meio Ambiente e Desenvolvimento (IIED na sigla em inglês) e os sócios da Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (SDSN na sigla em inglês), Fundação Amazonas Sustentável (FAS na sigla em português), o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e a ONU Meio Ambiente, assim como diversas organizações indígenas, foram os co-organizadores de um workshop de líderes indígenas um dia após a visita do Papa Francisco.

 

O objetivo desse encontro, era refletir a mensagem do Papa e assim, extrair conclusões e prioridades para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) na Amazônia peruana e brasileira. 

 

A longo do dia, era claro que os participantes ainda estava comovidos pelos sucesso do dia anterior.
 
"Ele realmente escutou o que lhes dissemos", afirmou Yesica Patiachi, liderança indígena do povo Harakbut, um dos principais grupos étnicos em Madre de Dios. 

 

Os líderes que nos acompanharam mencionaram que a mistura de serem ouvidos e terem alguém com uma voz tão influente que fale de suas preocupações de maneira tão completa, e com tanta preocupação, os fortaleceu. Estava claro que algo muito significativo sucedido. Mas, algo mudará?

 

O que vai acontecer a seguir?

 

Apesar da cobertura dos meios de comunicação peruanos e dos diversos discursos que seguiram, o risco é que o entusiasmo por gerar mudanças, desapareça. As pessoas se sintam desanimadas e as práticas danosas continuem impunes.

 

Mas também existem razões para ter esperança.


"O reconhecimento e o diálogo serão o melhor caminho para transformar as históricas relações marcadas pela exclusão e a discriminação"- Papa Francisco.

 

Nosso workshop se beneficiou da abertura e disposição para colaborar e estabelecer as prioridade comuns que os líderes indígenas apresentaram. Não existe dúvida que suas energias renovadas foram resultado do reconhecimento global que o Papa gerou para as temáticas dos povos amazônicos. 

 

Depois do nosso workshop, visitamos a Amarakaeri - uma reserva natural gestionada conjuntamente por comunidades nativas e governo peruano. Os moradores indígenas vivem na reserva, a protegem e dirigem pequenas empresas, tais como o manejo das castanhas para obterem ingressos.

 

Enquanto estávamos percorrendo o rio Madre de Dios para a reserva, falei com nossos anfitriões sobre os planos do IIED e seus aliados para organizar um processo de diálogo sobre a ASM na Amazônia que pode ajudar a mobilizar diferentes atores para lidar com os danos causados pela mineração ilegal de ouro. Também falei - comentei, que existem muitas pessoas envolvidas que somente buscam ganhar a vida.  

 

Para minha surpresa, eles responderam com uma chuva de ideias e sugestões como aprender as técnicas ancestrais de fazer mineração; ter em conta as estruturas sociais das comunidades a fim de que não se corrompam pelo ouro; e estabelecer um fundo para que os ganhos provenientes da mineração beneficiem as comunidades. Como alguém no workshop disse, temos passado dos protestos as propostas.
 

Me parece que, se aqueles que são mais afetados pela mineração ilegal de ouro já estão dando o melhor em um diálogo que está apenas começando, já estaríamos em um bom ponto de partida.

 

Gabriela Flores(gabriela.flores.zavala@gmail.com) é especialista em comunicação e associada sênior do IIED

 

 

Galeria

 

Uma visão da coleção de fotos da visita do Papa Francisco a Amazônia, sua conversação com as populações indígenas e abaixo a galeria da reserva natural de Amarakaeri.

 

 

 

 

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