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Opinião | Igualdade de gênero para o desenvolvimento sustentável

                                                                                                                                 Foto: Macarena Mairata

 

 

O dia 8 de março foi adotado como o Dia Internacional da Mulher pelas Nações Unidas apenas na década de 70, tendo como objetivo lembrar as conquistas sociais, políticas e econômicas das mulheres, independente de divisões nacionais, étnicas, linguísticas, culturais, econômicas ou políticas.

Avançando no tempo, a Agenda 2030 e seus 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), coloca a Igualdade de gênero como um dos temas centrais e transversais. Assim, ao subscreverem esta Agenda global de Desenvolvimento, os Estados membros da ONU comprometeram-se a enfrentar coletivamente os problemas de âmbito social, econômico, ambiental e cultural que afetam os direitos das mulheres.

 

Por este motivo, celebrar o Dia Internacional da Mulher torna-se fundamental, pois o desenvolvimento sustentável nunca será alcançado se as barreiras tangíveis e intangíveis que impedem o pleno desenvolvimento e exercício das capacidades de metade da população mundial não forem eliminadas. Portanto, um dos objetivos centrais de quem trabalha para a promoção de um modelo de desenvolvimento verdadeiramente sustentável e inclusivo deve ser a promoção da Igualdade de Gênero e o empoderamento de mulheres e meninas.

 

Sabemos que os desastres naturais relacionados às mudanças climáticas prejudicam principalmente as pessoas em situação de vulnerabilidade em países em desenvolvimento e na maior parte, mulheres e crianças devido ao menor acesso à recursos financeiros e à educação de qualidade e isso faz com que elas estejam mais expostas aos efeitos da mudança do clima.

Entretanto, mulheres e meninas não devem ser vistas apenas como vítimas, e sim como parte fundamental da solução para o problema! Garantir direitos humanos básicos a metade da população mundial não apenas promoveria maior resiliência frente à mudança climática, mas diminuiria, substancialmente, a poluição lançada atualmente na atmosfera.

 

De acordo com dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), as mulheres representam a maior parte das trabalhadoras rurais. Com os efeitos climáticos extremos que temos vivido, muitos lugares estão perdendo as suas áreas produtivas, o que significa muitas mulheres perdendo seus trabalhos e fonte de renda e consequentemente diminuindo a oferta de alimentos para as suas famílias.

 

Apesar das mulheres serem a maior parte das trabalhadoras rurais, a maioria delas é de pequenas proprietárias, com menos renda, menores chances de conseguir empréstimos e menos proximidade com novas tecnologias em comparação aos produtores homens. Estima-se que se elas tivessem o mesmo acesso que eles a recursos, a produção aumentaria e esse ganho levaria a uma necessidade menor de desmatar outras áreas em busca de melhores resultados.

 

Desafios similares aos enfrentados pelas mulheres rurais, são enfrentados também pelas mulheres que vivem na Amazônia. Apesar das mulheres que vivem em comunidades situadas às margens de rios e lagos da Amazônia - mulheres ribeirinhas - contribuírem para a economia no âmbito familiar e comunitário, também contribuem para significação do lugar em que vivem e interagem, mas ainda sim, estas são minoria nos postos de lideranças em associações comunitárias, ou seja, as tomadas de decisão para a comunidade seguem partindo do homem e não da mulher.

 

Romper com a lógica patriarcal, influenciada por diversos grupos sociais que ocuparam a Amazônia, cumprir com a dupla jornada - trabalho doméstico e o trabalho para a comunidade-pouco acesso a energia, a saúde e a educação são alguns dos desafios enfrentados.

 

Por isso, para que as medidas em relação ao clima passem a contemplar também a visão, as necessidades e os direitos das mulheres é preciso trazê-las para os espaços de decisão. Mesmo sabendo da importância da mulher na agenda climática, as delegações dos países dentro dos processos de tomada de decisão da ONU são dominadas pelos homens. Em 2017, por exemplo, as delegações da Conferência da ONU sobre Mudança Climática (COP23) tiveram uma média de 38% de mulheres.

 

A efetiva participação das mulheres em postos de liderança e decisão, leva a melhores políticas. Mulheres impactadas por mudanças ambientais negativas, ao mesmo tempo em que são as maiores prejudicadas também têm uma perspectiva única para soluções criativas e apropriadas. Por fim, abordar problemas ambientais complexos deve incorporar os direitos humanos das mulheres para evitar o aumento da desigualdade de gênero e da violência contra as mulheres e para assegurar o desenvolvimento sustentável.

*Letícia Cortellazzi é pós doutora pela Universidade de Brasília - UnB. Doutora em Ciências da Educação pela Université Paris Descartes Faculté des Sciences Humaines et Sociales-Sorbonne. Foi Coordenadora de projetos em Educação e Cultura na Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da Republica e trabalhou na Organização das Nações Unidas, ONU, na agência ONU Mulheres Brasil. Atualmente é gerente do Programa de Soluções Inovadoras da Fundação Amazonas Sustentável - FAS. 

 

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